Da minha desanimação
Ou de "Queria estar comemorando, mas estou estragando a festa"
Queria estar comemorando como os outros. Mas por dentro não consigo.
Veja bem: ter o ex-presidente Jair Bolsonaro condenado por liderar uma tentativa de golpe de Estado é sim uma vitória para uma democracia de só 37 anos. Nasci no mesmo ano que ela e ainda acho que estou numa adolescência tardia. Então, é ainda uma democracia nova.
Junto à condenação, há também a condenação de militares, algo não feito na história brasileira e que traz rasgos até hoje na nossa vida política.
Então, sim, gostaria de estar comemorando. Mas não consigo.
Não consigo porque para mim o Bolsonaro é só um em meio à um movimento mundial de radicalização da extrema-direita.
Sim, sei que estou estragando a festa e que todo mundo sabe disso. Não é novidade.
E, sim, minha terapeuta fala que devo comemorar as pequenas vitórias, mesmo que sejam pequenas.
Mas nesse caso não consigo.
E acho que não consigo porque convivo diariamente com bolsonaristas.
Minha família é. Pessoas da minha cidade são. O prédio em que moro também é. Acho que as únicas pessoas que não são, estão enclausuradas na universidade. Mas fora desse ambiente acadêmico, quase todo mundo é.
E isso me dá uma dimensão muito maior do que é esse movimento.
Por mais que digamos bolsonarismo, remetendo ao Bolsonaro, ele não é mais a única preocupação.
Sim, ainda há o uso com o nome dele e agora com a condenação haverá um muro de lamentações de aliados dizendo que farão justiça por ele (mas só ganharão votos, nada mais).
Só que vejo um movimento na grande imprensa, reprodutor de falas do empresariado brasileiro, que há um deslocamento de figuras da extrema-direita com mais pessoas querendo pegar esse posto do Bolsonaro. Tarcísio, governador de São Paulo, é um deles.
Desde o início deste ano vejo as críticas ao Governo Lula crescerem em grandes veículos. E veja bem, pode criticar o Governo Lula. Aliás, deve criticá-lo.
Mas uma coisa é a crítica baseada em análise e contexto. Outra é colocar porta-vozes em jornais de circulação nacional para defender pontos de vista do seu setor. Um exemplo foi a taxação do Trump. Era visível para todo mundo que era uma questão política. Até mesmo o Bolsonaro admitiu que era por causa dele. Mas o que víamos era empresários que cobraram uma negociação econômica do Governo Lula. O próprio Alckmin, com aquele carisma próprio, foi até à Ana Maria Braga para ver se conseguia popularidade. Mas não deu certo. Os empresários continuaram a falar e os jornais a repetir tal qual papagaios.
É diante de um cenário como esse que Tarcísio aparece. Já tinham vendido como moderado. Mesmo agora, aparecendo em caminhão pedindo a anistia de Bolsonaro, há quem queira defender que ele não é tão radical assim.
Confesso que estou me preparando desde já para o ano que vem. Tenho a impressão que Tarcísio pode ganhar. Pode acontecer como na última eleição. Voto por voto. Mas com a inflação subindo, mesmo que se tenha aumento de empregos, o salário já não é suficiente para pagar aluguel, comida e contas. E isso tem um peso enorme no voto do cidadão.
Mesmo que por um milagre a equipe econômica do Governo Lula venha a ajudar a diminuir a inflação, ainda estamos no atual mundo que está pegando fogo, literalmente.
Somente ontem (10/09), enquanto o ministro Luiz Fux levava 13 horas para defender o grupo de Bolsonaro, aconteceu protestos com violência na França, um cara da direita-extrema americana foi morto (radicalizando ainda mais a disputa política no país), a Rússia tacando drone na Polônia, fora a revolta no Nepal (que tem sido usada de narrativa pela extrema-direita brasileira).
Tudo isso faz com que as pessoas fiquem desconfiadas, não invistam, o que faz com que os mercados não cresçam, o que consequentemente traga mais crises econômicas. Não é apenas o brasileiro que está pagando mais na conta do mercado. Tem americano, europeu, japonês, todo mundo enrolado não conseguindo pagar as contas.
E, obviamente, a extrema-direita tem se utilizado disso. Cria-se demônios para botar a culpa da crise, para sempre poder surgir o novo salvador que vai ajudar a classe média a voltar a ter seu consumo normalizado. E junto com isso a perseguição a minorias.
No mundo e aqui no Brasil não é diferente. E é isso que vai acontecer ano que vem.
O discurso de Tarcísio é radical desde sempre, mas agora vai seguir tentando levar justiça ao Bolsonaro. E ele já começou:
Então, quando vejo a sentença de 27 anos para o Bolsonaro, não sinto vontade de comemorar.
O que me vem à cabeça é que Tarcísio poderá se eleger ano que vem, assumir em 2027 e dar indulto ao Bolsonaro. Talvez ele não passará dois anos preso. Vai estar inelegível, mas não preso.
E aí vem a minha desanimação, vamos dizer assim.
Tomara que eu esteja errada (como muitas vezes estou) e que essa desanimação seja fruto da minha ansiedade.
Mas não consigo comemorar. Só esse pensamento vem à minha mente.
Para você que chegou até aqui, desculpe ter estragado a festa.
Mas se assim mesmo você está comemorando, mesmo com a carrancuda aqui, por favor comemore por mim.
Posso não estar fazendo festa. Mas isso não significa que outros não possam fazer.


